O medo de perder e a dificuldade de se entregar
- Paula Hickmann
- 8 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025
Amar pode ser um risco para quem já conheceu a dor do abandono. Quando o coração guarda memórias de ausências e rejeições, o amor deixa de ser um espaço de encontro e passa a ser um território de vigilância. Surge o medo constante de perder, de não ser suficiente, de que tudo desmorone de novo.
E então, sem perceber, a pessoa começa a amar com o freio puxado. Tenta controlar, antecipar, proteger-se. Mas quanto mais tenta segurar, mais escapa. Amar, assim, vira esforço, tensão, insegurança. E a entrega, que poderia ser leve e espontânea, passa a carregar o peso de antigas feridas.
O medo como eco do passado
O medo de perder raramente nasce no presente. Ele costuma ecoar histórias antigas, muitas vezes enterradas no inconsciente. Na psicologia analítica, compreendemos que certas vivências moldam complexos, núcleos emocionais que seguem influenciando pensamentos, reações e vínculos.
Se alguém foi abandonado emocionalmente na infância, por exemplo, pode carregar um complexo de abandono. A cada nova relação, esse complexo se ativa, fazendo a pessoa reagir não ao parceiro atual, mas às dores do passado. É como se o coração revivesse, vez após vez, a mesma cena de perda.
A ilusão do controle
Diante desse medo, surge a tentativa de controle. Controlar o que o outro sente, pensa ou faz. Mas controlar é diferente de amar. E no desejo de manter o vínculo a qualquer custo, pode-se sufocar o outro e a si mesmo.
Esse comportamento é alimentado por uma parte da psique que teme o desamparo. Como se, ao prever tudo e se antecipar a qualquer risco, fosse possível evitar a dor. No entanto, o controle é apenas uma armadura. Ele não impede a dor. Apenas adia o inevitável enfrentamento interno.
Quando o amor vira campo de batalha
Com o tempo, o vínculo afetivo deixa de ser espaço de encontro e vira um lugar de tensão. Pequenas ausências são lidas como rejeição. Gestos neutros soam como indiferença. O outro se torna um espelho de inseguranças, e qualquer distância é vivida como ameaça.
Nessas situações, o medo não permite a presença plena. A relação se torna uma batalha entre querer se entregar e precisar se proteger. E isso não é culpa, é ferida. Uma parte da alma ainda está sangrando por algo que não foi elaborado.
A entrega como escolha consciente
Desarmar-se exige coragem. Requer olhar para dentro, reconhecer os próprios fantasmas e acolher a criança ferida que habita a alma. Na psicologia analítica, esse processo é parte da individuação, o caminho de tornar-se inteiro.
Entregar-se não é ignorar os medos, mas aprender a lidar com eles de forma madura. É assumir que o amor envolve risco, mas que também pode ser espaço de cura. E que ninguém se cura sozinho. É preciso se permitir ser visto, acolhido e amado de verdade.
Amar com presença
Quando as feridas começam a ser reconhecidas, algo muda. O amor deixa de ser uma tentativa de evitar a perda e se transforma em presença real. Já não é preciso controlar, nem vigiar. Há espaço para respirar, confiar, sentir.
A entrega acontece de forma mais natural porque a alma já não está tentando proteger-se de algo que não pertence mais ao agora. E nesse espaço, o vínculo se aprofunda. Não porque está livre de falhas, mas porque está enraizado na verdade.
Se algo dentro de ti ainda teme se entregar, talvez seja hora de escutar com mais cuidado essa voz interna. A psicoterapia pode te ajudar a acolher as feridas e a construir relações mais leves, verdadeiras e presentes.




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