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Relações de trabalho que adoecem: quando a alma não cabe no crachá

A alma sente antes que a mente compreenda. Às vezes, ela começa a gritar em silêncio no corpo, no sono agitado, na vontade de sumir ao domingo à noite. Outras vezes, o grito vem disfarçado de apatia, impaciência, choro contido no banheiro ou um cansaço que não passa. São sinais de que algo se rompeu na relação com o trabalho e, principalmente, na relação consigo mesmo.


Quando falamos em sofrimento psíquico no ambiente profissional, não estamos falando apenas de metas inalcançáveis, cobranças exageradas ou excesso de tarefas. Falamos, sobretudo, de vínculos que deixam de ser humanos e passam a ser funcionais. Relações em que o sujeito vira apenas uma peça que precisa performar, produzir, render. Mesmo quando está esgotado por dentro.


O perigo de vestir o crachá como armadura


Na psicologia analítica, chamamos de persona a máscara social que usamos para nos adaptar ao mundo. É ela que nos permite ter um papel, um nome, uma função. Mas quando a persona toma conta da psique, esquecemos de quem somos sem esse papel. E é aí que mora o risco.


A pessoa que se identifica apenas com seu cargo, sua produtividade ou seu desempenho, pode entrar em colapso quando algo disso é ameaçado. Ao menor erro, surge a culpa devastadora. Diante de um feedback, a sensação de fracasso. O elogio se torna necessidade vital, e o silêncio do chefe, uma sentença de exclusão.


Esse tipo de vínculo com o trabalho fragiliza a alma. Porque, sem perceber, a pessoa vai se distanciando de sua essência, tentando sustentar um personagem forte, competente e incansável… mesmo que por dentro só exista cansaço e solidão.


A sombra nos bastidores da performance


Jung nos convida a olhar para a sombra, aquilo que reprimimos por não caber na nossa imagem ideal. No ambiente profissional, a sombra pode aparecer como medo de errar, insegurança, inveja, raiva, procrastinação ou baixa autoestima. Mas também se revela no excesso de esforço para ser perfeito, útil e necessário o tempo todo.


Quantas vezes uma alma sensível se esconde atrás de metas? Quantas vezes a intuição é sufocada pela lógica da produtividade? Quantas vezes a necessidade de descanso é julgada como preguiça?


A sombra não desaparece quando ignorada. Ela se expressa nos sintomas: crises de ansiedade, insônia, dores recorrentes, falta de motivação, sensação de não pertencimento. Esses sinais são convites para um olhar mais profundo.


Quando o ambiente vira espelho da ferida


Ambientes autoritários, desorganizados ou emocionalmente negligentes ativam feridas antigas em muitas pessoas. Uma liderança ausente pode reativar a sensação de abandono. Um grupo competitivo pode reacender inseguranças de infância. A cobrança velada pode tocar na ferida de não se sentir suficiente.


Nesse sentido, o trabalho se torna espelho de conteúdos internos ainda não integrados. Mas ao invés de condenar o ambiente (embora ele possa, sim, ser adoecedor), o olhar terapêutico convida a perceber: o que essa vivência está refletindo em mim? O que está pedindo cuidado?


O adoecimento como pedido de mudança


A exaustão não é fraqueza, mas uma tentativa da alma de dizer que algo precisa mudar. A ansiedade constante, o choro fácil, o desinteresse, a vontade de desistir… tudo isso é linguagem simbólica. Não são inimigos a serem combatidos, mas mensagens a serem compreendidas.


Individuar-se, nesse contexto, é resgatar a conexão com o que tem sentido. É reavaliar o lugar que o trabalho ocupa na vida. É permitir-se ser vulnerável, reconhecer limites, buscar ajuda, repensar escolhas. Pode significar mudar de emprego, sim, mas também pode significar mudar a forma como você se relaciona com ele.


O trabalho pode ser fonte de vida, não de exaustão


Trabalhar não precisa ser sinônimo de sofrimento. Relações profissionais podem ser saudáveis, criativas, respeitosas. Mas, para isso, é preciso escutar a si mesmo. Quando o corpo adoece e a alma se cala, algo está fora do lugar. E voltar para si pode ser o primeiro passo para recuperar o fôlego, a saúde e a clareza.


Se o seu trabalho está adoecendo sua alma, talvez seja o momento de parar, escutar e, quem sabe, reconstruir esse vínculo de outro jeito. Começando por dentro.

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