O vazio que aparece quando tudo silencia
- Paula Hickmann
- 26 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Às vezes, mesmo com a vida aparentemente em ordem, algo falta. O trabalho vai bem, os vínculos estão estáveis, há saúde, conquistas e até momentos de lazer… Mas, quando tudo silencia, surge um vazio que não tem nome. É uma ausência que não se preenche com metas, nem com afeto, nem com distrações. Como se o centro da alma estivesse oco, pedindo algo que a razão não consegue traduzir.
Quando o silêncio escancara o vazio
Vivemos em um mundo que valoriza conquistas, produtividade e certezas. Nesse ritmo, aprendemos a nos ocupar para não sentir, a buscar fora o que falta dentro. Mas quando o barulho cessa e as obrigações diminuem, algo mais profundo emerge: o confronto com aquilo que ficou esquecido. O vazio, nesse contexto, não é ausência de vida. É ausência de conexão.
É como estar em uma sala cheia de móveis bonitos, mas perceber que o centro está vazio, e que ali no meio deveria existir algo essencial: você mesmo.
Desidentificações e o descompasso da alma
Na psicologia analítica, esse sentimento pode sinalizar um afastamento do Self, o núcleo mais verdadeiro da psique. Quando vivemos muito tempo identificados com personas sociais, acumulando papéis e expectativas, vamos nos distanciando do que nos é essencial. O vazio aparece como um eco dessa desconexão.
É comum isso surgir em momentos de pausa: após uma conquista, nas férias, no fim de um ciclo, quando tudo está aparentemente bem. A vida externa desacelera, e o que foi varrido para dentro pede passagem. São partes esquecidas da alma que batem na porta querendo ser vistas.
O chamado por reconexão
Esse vazio pode parecer assustador, mas também pode ser um convite. Um chamado simbólico para retornar a si, resgatar o que ficou adormecido, criar sentido e autenticidade.
Muitas vezes, por trás do vazio, há desejos abandonados, dores não escutadas, símbolos interiores que perderam espaço. A reconexão com o Self não acontece de forma imediata, mas pode começar com pequenos gestos: silenciar para escutar, desacelerar para sentir, permitir que o nada também fale.
Corpo, sonhos e sentimentos como bússolas
A alma fala por meio do corpo, dos sonhos e dos afetos. Um cansaço que não passa, um sonho recorrente, uma tristeza sem motivo aparente - tudo isso pode ser pista. Quando escutamos com atenção, começamos a decifrar o que está pedindo lugar. O vazio, então, deixa de ser um buraco sem fim e passa a ser um espaço fértil para o novo.
O vazio como início, não como fim
Nem sempre o que dói precisa ser combatido. Às vezes, precisa apenas ser acolhido. O vazio que aparece quando tudo silencia pode ser o portal para uma jornada de autoconhecimento mais profunda. Ele marca o fim das distrações e o começo de uma nova escuta.
Se você sente esse vazio, talvez sua alma esteja pedindo por reconexão. E isso não é fraqueza, é coragem. A coragem de olhar para dentro e começar, com delicadeza, a habitar a si mesmo de novo.




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